No caminho cristão, o que é
importante não é a velocidade com que estamos indo, nem a distância percorrida,
mas sim a direção que tomamos.
(A. W. Tozer)
É fundamental saber que aqueles que
trabalham e sofrem por servir a Cristo e proclamar seu evangelho de forma
nenhuma estarão desamparados, o Senhor Jesus prometeu que sempre estaria junto
conosco em todos os momentos (Mateus 28. 18-20). Ele também prometeu que não
nos provaria além de nossas forças, desta forma, nenhum destes empecilhos que
aqui vou mencionar deve ser fator desmotivador para o avanço missionário nas
nações.
Quem vive em contextos transculturais
acabam sofrendo muitas pressões em diversas áreas. Muitas vezes essas crises
levam os missionários a se sentirem confusos, solitários e em certos momentos desorientadas. São
estrangeiros fora de sua pátria e isso torna tudo mais difícil. Em muitos casos,
quando retornam para sua terra natal sofrem o que chamamos de choque cultural
reverso, eles se sentem como estrangeiros dentro de sua própria pátria.
Solicitei a um missionário conhecido
que me relatasse as principais dificuldades encontradas no campo e em e-mail
ele me respondeu:
Creio que um dos
primeiros desafios foi o da comunicação. Apesar de poder falar em Inglês e
Espanhol, estas línguas foram apenas pontes para chegar até o povo nativo,
porém, dali em diante foi preciso tomar a postura como de uma criança e
aprender tudo do zero; ser um aprendiz. Foi preciso colocar a vergonha de lado
e vestir-me de humildade para aprender do jeito do povo seus usos e costumes,
porque a língua expressa a cultura também. Assim pude compreender mais do que
ser compreendido, tornando-me como um local apesar de fisicamente ainda ser de
fora. Após um ano e meio no Timor-Leste, tive uma experiência que marcou muito
minha trajetória no campo transcultural. Uma vez estava com uma equipe de
jovens vindos de igrejas diferentes da Austrália e nesta ocasião visitávamos um
museu, depois do tempo na aldeia construindo casas para as famílias do local,
apoiando um projeto do governo local. Ali, após conhecer um pouco da história
do país, um senhora que me servia café em uma cantina parou e permaneceu em pé
diante de mim. Intrigado perguntei: Mais alguma coisa senhora? Ela então me
perguntou de volta: Você é um timorense nascido na Austrália? Lhe respondi que
não, mas curioso lhe perguntei o porque da comparação. Ela na mesma hora me
disse que apesar de ter um físico diferente do timorense comum meu trato era
como o de um local.
A comida
diferente também pode ser um desafio. Na Indonésia por exemplo, os pratos
típicos são preparados ou cozinhados com pimenta, e das que ardem! Nos
primeiros dias, para me adaptar ao tempero local não foi nada fácil, especialmente
para quem não tinha esse tipo de hábito em casa.
Como disse antes, devemos ser aprendizes,
porque se eu parar de aprender penso que não estudei corretamente. Muito do que
havia aprendido na caminhada cristã na igreja local e depois o primeiro treinamento
missionário dentro de Jovens Com Uma Missão foi uma boa base para o começo. É
claro que à medida que você segue trabalhando os desafios no campo abrem o
espaço para a busca de novos cursos e aperfeiçoamento que trazem ferramentas
específicas para o que está sendo desenvolvido além do que é aprendido na
prática diária no campo.
Tive momentos de
crises ou como se diz “vacas magras”, mas nunca passei necessidade. Deus tem
sido fiel e para cada lugar onde já servi e tenho servido como missionário
tenho visto o Senhor prover aquilo que é necessário. Às vezes há pessoas que
param de apoiar financeiramente e não comunicam, mas aprendi que bons
relacionamentos, visão clara do chamado missionário, transparência nas finanças
e fé no Senhor da seara e não nos homens formam uma base sólida para um
sustento constante. Eu mesmo já a 9 anos no campo tenho amigos na minha rede de
parceiros, como a chamo, que estão comigo desde quando fiz a minha Eted (Escola
de Treinamento e Discipulado) - escola básica de ingresso na missão.
Tive o choque
reverso ao voltar para casa. Pensava: Como as pessoas conseguem pensar tanto em
si mesmas quando há tanta gente perdida, e como não pensar em missões como
sendo parte primordial na caminhada de fé cristã ao invés de apenas um setor na
igreja que às vezes nem é levando a sério.
Outra questão falada pelo nosso amigo
trata-se do choque cultural reverso, isso acontece quando retornamos para a
nossa cidade natal e neste momento existe uma grande cobrança em relação aos
resultados do trabalho.
A questão da comunicação não é
desafiadora somente no campo transcultural, mas também no campo mono cultural.
Um missionário que sai do sudeste brasileiro e se direciona para o sertão
nordestino, por exemplo, pode ter sérias dificuldades na comunicação e
adaptação.
Tive muitas experiências enquanto
pregava, pois no final da pregação perguntava se as pessoas haviam entendido a
mensagem, e o silêncio tomava conta do ambiente, logo percebia que 50% da
mensagem não havia sido absorvida pelos ouvintes. Com o tempo, esse problema foi
amenizando, mas quando falamos de comunicação, estamos destacando a nossa
ferramenta mais importante para um bom relacionamento com a localidade, se esse
elemento for prejudicado podemos sofrer de diversas formas.
Esses assuntos são muitas vezes
tratados nas agências, entretanto, como nosso amigo Rob fala acima, na
caminhada no campo precisamos nos tornar aprendizes novamente.
Os riscos de estar em ambientes
violentos, com pragas e conflitos podem abalar emocionalmente o servo. Em muitos
lugares o missionário tem que conviver com o risco de contrair malária e outros
problemas decorrentes da falta de higiene, além disso, existem povos que estão
afundados em epidemias de HIV/AIDES.
No decorrer do trabalho missionário é
grande o número de pastores e missionários que abandonam o campo, os motivos
são variados, mas podemos elencar alguns.
O esgotamento físico muitas vezes é
uma causa, o cansaço e a falta de vigor os impedem de dar continuidade no
trabalho.
Alguns acabam deixando o trabalho por
falta de apoio da agência ou igreja que os enviou, outros recebem somente ajuda
financeira e ficam carentes nos outros aspectos básicos.
É importante lembrar que o cuidado integral do
missionário trata-se não só de apoio financeiro, mas também de oração,
pastoreio, visita, mensagens e orientação.
Muitos deixam o campo por conta do
relacionamento com outros companheiros de grupo e neste caso a corrupção pode estar
presente nesta relação.
Ainda podemos ver o abandono do
trabalho quando os mantenedores deixam de ser fiéis, quando há problema com os
filhos, problemas financeiros, de saúde, sentimento de incapacidade e dificuldade
de adaptação.
Para que esse problema seja sanado é
preciso que o cuidado seja integral. Em primeiro lugar o missionário não deve
achar que é um herói insubstituível, férias são para ser tiradas. O missionário
que sai para descansar em sua cidade natal acaba assumindo tantos compromissos
de visitar e pregar que acaba trabalhado mais ainda. A melhor coisa neste caso é
ficar em uma cidade vizinha e descansar.
É preciso também que o cuidado com a
saúde não seja negligenciado, antes de ir para o campo, questões relacionadas a
planos de saúde e cuidados com medicamentos devem ser tratados com a agência,
igreja ou com alguém que queira se dispor a ajudar. As necessidades dos filhos
devem ser cuidadosamente estudadas, eles sofrem com a adaptação e em alguns
casos com a falta de escola, moradia, transporte do campo para a cidade natal e
tempo de permanência devem ser seriamente discutidos.
Finalizo essa parte enfatizando que todos
precisam ser pastoreados, quando isso não é feito pessoalmente é preciso que
seja feito por e-mail ou skype. O Aconselhamento deve ser frequente, e em caso
de problemas emocionais como depressão, pânico e outros, a terapia online
também pode ser um recurso.
Sabemos que hoje existem mais de 100
milhões de cristão sendo perseguidos pelo mundo. Quando a situação se agrava a ponto de oferecer risco para a integridade do
missionário, para a missão e sua família, é preciso haver socorro por parte da
igreja ou agência.
Em alguns momentos o chamado deve ser
reavaliado, não para o abandono da missão, mas para nos perguntar se o tempo
para estar naquele lugar acabou, se pode ser tempo de mudança, ou talvez de
descanso. Muitos se envergonham em falar sobre isso, entretanto, mais vale uma
família conservada sendo utilizada e em um campo mais apropriado do que ter uma
família destruída e infrutífera.
O missionário precisa lembrar também
que se o trabalho estava programado para 3 anos e precisa ser abandonado no
segundo ano, este teve um ano de aproveitamento do trabalho, a palavra foi
semeada e certamente o trabalho não será em vão.
Certamente que decisões como esta
devem ser feitas com muita oração e orientação, lembrando que muitos podem ter
mais disposição para o sofrimento que outros, cada caso deve ser visto e orado
sem se criar regras gerais para indivíduos diferentes.
O missionário pode ir por contra
própria, isso é o que chamamos de autoenvio, normalmente o missionário faz
contato com uma igreja local e acaba financiando sua viagem. Ele pode ser
enviado também por uma agência sem a participação de sua igreja, ele se filia à
agência e tudo é feito por lá, ele pode ser também enviado por sua igreja
local, esta fica responsável pelo preparo e sustento do mesmo, e ainda pode
haver uma parceria entre os dois.
Hoje em dia existem diversas agências
que fazem o trabalho de envio, bem como igrejas que tem o seu departamento de
missões. Acredito que isso é motivo de alegria, pois a igreja tem visto missões
não como uma atividade paralela da igreja, mas como parte essencial da mesma.
Na relação entre agência e igreja-instituição,
é preciso tomar alguns cuidados para que a missão e o missionário não sejam
prejudicados, é importante que a igreja veja a agência como uma aliada no serviço
e conte com seu serviço, é fundamental verificar o trabalho que está sendo
realizado por ela a fim de ter segurança para contar com seus serviços.
A agência deve reconhecer que a missão
é um trabalho da igreja e de forma nenhuma tentar difamar o trabalho da igreja
local. É preciso ter uma boa comunicação entre a agência e a igreja a respeito
das resoluções como documentações dos enviados. O
acordo entre as mesmas deve ser
estabelecido com bastante antecedência e clareza, cada um sabendo seu papel.
Qualquer problema na comunicação e eficácia desta relação pode acarretar muitos
danos para quem está no campo, principalmente na hora do socorro.
Deus estará sempre requerendo que seus
servos sejam enviados para a realização da missão. As colocações feitas acima
não são de forma nenhuma movidas por tentativa de frustrar ou desanimar o
missionário, mas de fazer com que problemas que já são corriqueiros no campo
venham a ser amenizados.
É de meu conhecimento que muitos que
hoje estão no campo estão passando por severas perseguições, muitos estão
doentes e outros até já perderam filhos, esposas ou maridos na obra, mas
permanecem firmes. Neste momento devemos nos lembrar da atuação dos discípulos
em Atos dos Apóstolos, dos crentes na China, indonésia, Coréia do Norte e
outros países que declaram guerra contra qualquer manifestação cristã em seu
meio. Devemos nos lembrar destes modelos e perceber a ação cuidadosa de Deus em
suas vidas, Sua promessa é que Ele jamais nos desampararia, mas que estaria
conosco sempre.
Devemos sempre recorrer a Deus e em
momento algum rejeitar o cuidado pastoral e o discipulado amoroso de nossos
líderes, quanto mais breve a ajuda chegar, mais rápido a cura virá.
O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento
para o corpo
(John Stott)

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