Por Fernando Corrêa Pinto
O século 20 testemunhou um colapso do consenso cristão que manteve a cultura
ocidental coesa durante séculos. A secularização empurrou as igrejas para a marginalidade
cultural em muitos países e hoje falar de Deus é considerando politicamente incorreto.
Ser responsável pelo
serviço pastoral atualmente consiste em um trabalho mais difícil do que em
qualquer época.
O relativismo moral e a visão secular afetam profundamente
a obra da igreja e de seus ministérios. A sociedade experimenta grandes
mudanças de forma muito acelerada. De acordo com um levantamento da revista Christianity Today (Cristianismo Hoje),
66% dos norte americanos já possuem uma visão profundamente secularizada e se
consideram relativistas em relação ao cristianismo.
John Stott, em seu último livro, confirma tais crises da
sociedade, destacando quatro tendências contemporâneas que ameaçam a Igreja Cristã:
o pluralismo religioso, o materialismo, o relativismo ético e o narcisismo.
Em relação à liderança cristã contemporânea, afirma John
MacArthur:
Alguns lideres contemporâneos da
igreja imaginam que são empresários, profissionais de mídia, artistas,
psicólogos, filósofos ou advogados. Essas noções contrastam de modo marcante
com o teor do simbolismo que as escrituras empregam para descrever os líderes espirituais.
O nosso século é marcado por um grande crescimento
tecnológico. David Fisher documenta que este é um mundo em que as máquinas com
frequência são mais valorizadas do que as pessoas. Cada vez mais norte-americanos
procuram comunicar-se eletronicamente e assistirem cultos através da televisão. Tais
costumes têm levado este povo a deixar de congregar e se tornarem mais
individualistas. O psicólogo Martin Seligman descreve uma importante consequência do
individualismo causado por este crescimento. Ele observa que a proporção da
depressão clínica nos jovens é até dez vezes maior do que na média da geração
de seus pais e avós. Para
Waldir Humberto Schubert, o ser humano têm sofrido de depressão mais do que
qualquer outra doença que afetou a humanidade. As
implicações deste problema para as igrejas são marcantes e cada comunidade e
pastores precisam aprender a lidar com esta deficiência.
No que se refere ao problema do materialismo ou consumismo,
David Fisher destaca:
Embora os perigos do secularismo
sejam mais óbvios, os do materialismo/consumismo podem ser os inimigos mais
perigosos da igreja, porque muitos aceitam os seus tentáculos em suas vidas sem
pensar. A consequencia inevitavel é que Deus fica reduzido em importância,
consignado ao reino dos assuntos invisíveis da alma. Julgamos nosso próprio
valor e o dos outros pelos sinais do sucesso material.
Temos visto o crescimento de teologias que transmitem a
mensagem da inexistência do sofrimento e do acúmulo material como resultado da
vida de fé. Vejamos o que afirma Kenneth E. Hagin: “As doenças e enfermidades
não são da vontade de Deus para seu povo. Ele não quer que a maldição paire
sobre os seus filhos por cauda da desobediência; Ele quer abençoá-los com saúde”. E
ainda:
Algumas pessoas parecem ter a
idéia de que se alguém é crente em Deus, cristão, é uma marca de humildade –
uma marca de espiritualidade – viver em pobreza e não possuir nada. Acham que
devem passar pela vida com o chapéu furado, com as solas dos sapatos furadas,
com o assento da calça totalmente gasto - sobrevivendo a duras penas. Mas não
foi assim que Jesus falou.
A questão ética é constantemente negligenciada por líderes
religiosos em muitos lugares do mundo. Neste sentido é verdade que muitas vezes
alguém pode ter uma doutrina bíblica correta mas ter um estilo de vida
incorreto. Em outras palavras, é possivel na doutrina estar com Deus e na
prática, com Satanás. Mas é iteressante observar, também, que quando alguém não
leva a Bíblia a sério teologicamente, a sua ética cristã fica comprometida.
Certamente não podemos generalizar, entretanto, é com
freqüência que a cada dia aumentam os casos da participação da liderança
religiosa em escândalos em níveis variados. Atitudes
desta ordem comprometem o testemunho e a eficácia da realização do trabalho
pastoral por depreciar a imagem do líder. Neste sentido “os puritanos do século
passado nos Estados Unidos tinham um provérbio que resume bem este quadro: ‘O
que você é fala tão alto que não consigo ouvir o que você diz’. Este
ditado reflete bem o sentimento de descrédito que se tem por parte da liderança
religiosa atual, como vemos abaixo:
Larry Lea, ex-deão da
Universidade Oral Roberts, e famoso nos Estados Unidos pelo seu ministério de intercessão,
é um exemplo a não ser seguido. Não faz muito tempo a rede de TV ABC nos
Estados Unidos mostrou um videoteipe do televangelista informando a seus
telespectadores que, quando a sua casa foi completamente queimada, ele ficou
praticamente sem teto, perdendo tudo que ele e sua família tinham, exceto a
roupa do corpo. Quando o programa da rede ABC mostrou a outra casa de Larry Lea
- uma mansão cheia de móveis e outros valores que ele não mencionara -, as
coisas mudaram. As doações cairam, as igrejas cancelaram seus convites e, para
muitos, Lea tornou-se persona non grata.
Considerando que uma parte significativa de nossa sociedade
é dirigida por valores semelhantes a estes, os pastores da atualidade são
constantemente tentados a imitar tais padrões e, muitas vezes, a representá-los
para certo auditório. Isto pode apontar para uma conduta muito perigosa.
Quando nos referimos à questão
de motivação, John MacArthur lembra um princípio importante para o exercício do
pastorado, encontrado no texto de Tito 1.6-9;
[...] alguém que seja
irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são
acusados de dissolução, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o
bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não
irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância;
antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de
si, apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder
tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem.
Ele destaca que a presença da
palavra: “Irrepreensível” não se refere a uma perfeição impecável, pois, neste
caso, nenhum ser humano estaria qualificado para o ofício, mas a um padrão
elevado e maduro que implica em um exemplo coerente.
Neste sentido, é necessário
destacar também a importância do amor a Cristo e às pessoas como pré-requisito
fundamental para o exercício do ministério. [20]
Tal caminho deve ser o motivador
e sustentador do chamado pastoral. Todavia, nesta parte, apesar dos destaques acima, o objetivo não
é estabelecer padrões, e sim discutir a motivação que levam pessoas ao ministério
hoje.
John Piper, em seu livro Irmãos, não somos profissionais, mostra
que uma parcela considerável dos pastores tem sido pressionadas com a idéia de
que o ministério pastoral é um emprego como qualquer outro. Como vemos na
citação abaixo:
Nós, pastores, estamos sendo
massacrados pela profissionalização do ministério pastoral. A mentalidade do
profissional não é a mentalidade do profeta. Não é a mentalidade do escravo de
Cristo. O profissionalismo não tem nada que ver com a essência e o cerne do
ministério cristão. Quanto mais profissionais desejamos ser, mais morte espiritual
deixaremos em nosso rastro.
Hernandes Dias Lopes afirma que a vocação é o caminho que
rege as escolhas. Nossa sociedade visa, acima de tudo, o lucro. As pessoas são
valorizadas pelo que possuem, e não pela dignidade de seu caráter. Desta forma,
o dinheiro norteia as escolhas profissionais. Quando alguém consegue unir o
senso do dever cumprido com o sustento financeiro alcança certa satisfação.
Outros são seduzidos pelo status do ministério e da liderança, contudo jamais possuíram
o chamado.
Tratando de motivação para o chamado pastoral, o autor
Kléos Magalhães Lenz César fala sobre os alicerces inseguros da
hereditariedade, a emoção, a manifestação sobrenatural e a desinformação
doutrinaria. Para ele, tais motivações são demasiadamente instáveis.
Lopes, em seu livro De
Pastor a Pastor, discute alguns problemas que podem abalar profundamente
aquele que está no ministério e não possui a vocação. Ele menciona problemas
como insegurança no ministério, medo de fracasso e indisposição para correr riscos. Também
se refere aos que governam o povo com um rigor demasiado, que dominam, usam de
autoritarismo e quando são questionados sobre o seu modelo de pastoreio são agressivos.
Outros são vitimas e sofrem com este tipo de atitude de seus líderes. Lopes
também lembra que alguns estão iludidos com o ministério, entendendo que o
exercício da vocação pastoral é uma diversão e não conseguem reagir quando a
realidade de lutas, oposições e pressões chegam. Ele
menciona problemas crescentes no meio pastoral, tais como, crises conjugais
constantes, pastores que vivem em uma contínua correria e deixam de atender os
de casa. Jaime Kemp afirma que atualmente existe uma grande porcentagem de pastores em
todo mundo que têm sérios problemas familiares.
Lopes ainda defende que um problema recorrente também no
meio pastoral moderno é o descontrole financeiro e irresponsabilidade
administrativa. Hoje, existem muitos líderes cristãos com pendências financeiras
em diversos estabelecimentos e vivendo de aparência, ostentando um padrão de
vida acima de suas condições financeiras.
Tércio Machado Siqueira afirma que a vocação pastoral deve
sobrepujar aqueles pastores que buscam apascentar a si mesmos. Afirma também
que esta vocação deve ter um foco profético nas diversas áreas da sociedade.
Não poderia deixar de mencionar um grande mal que a Igreja
Cristã já vem enfrentando há longas datas: a divisão. A falta de unidade da
igreja tem trazido um distanciamento cada vez maior dos ensinamentos de Jesus.
É de grande relevância para este estudo mencionar algumas causas deste problema
que afeta diretamente o ministério pastoral contemporâneo. Vejamos o que relata
H. Richard Niebuhr;
A divisão das igrejas segue de
perto a divisão social de castas em grupos nacionais, raciais e econômicos.
Traz a barreira racial para dentro da Igreja de Deus, promove o
desentendimento, a autoglorificação e o ódio próprio do nacionalismo
chauvinista, ao alimentar no corpo de Cristo diferenças espúrias oriundas de
lealdades provincianas. Faz ricos e pobres sentarem-se em separados à mesa do
Senhor, onde os afortunados desfrutam de abundância que granjearam enquanto os outros se alimentam de migalhas da
sua pobreza.
Como observa o autor, existe uma tendência divisionista
dentro das Igrejas Cristãs. Em primeiro lugar vemos que o problema é originário
de fora da Igreja. O autor fala de castas, ou seja, um grupo com
características próprias que podem ser raciais ou econômicas. Vemos que o
próprio Jesus resistiu à idéia de grupos especiais ao valorizar samaritanos,
pobres e até um centurião, entre outros. Da mesma forma observamos o apóstolo
Paulo, criticando o partidarismo da igreja de Corinto. Ele destaca a divisão
daquele povo que dizia “que eu sou
de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo.” Ele
afirma que não podemos fazer acepção de pessoas. O autor também menciona que
esta raiz da divisão pode estar ligada a lutas de poder para que um grupo tenha
a primazia em relação ao outro.
Atualmente também observamos que a desunião entre os
cristãos tem sido um fator que atrapalha a obra evangelística, como vemos
abaixo:
Hoje em dia, no entanto, muitos
dos nossos cristãos evangélicos não hesitam em ceder à tendência patológica que
temos de fragmentarnos. Para tanto, nos refugiamos em nossas convicções sobre a
unidade invísivel da Igreja, como se a sua manifestação visivel não importasse. E o resultado disso é
que o diabo acaba tendo o maior sucesso na sua velha estratégia de “dividir e
conquistar”. A nossa desunião continua sendo um grande impecilho para o evangelismo.
Atualmente focar na unidade do corpo de Cristo se tornou
tarefa que exige uma atenção por parte de toda a liderança cristã para que a
obra evangelística não seja interrompida. Desta forma, vemos que os pastores estão
diretamente ligados com esse desafio por se tratarem daqueles que estão na
liderança da igreja evangélica.
[1]
FISHER, David. O pastor do século 21:
Uma reflexão bíblica sobres os desafios do ministério pastoral no terceiro
milênio. Trad: Yolanda Mirsda Krievin. São Paulo: Editora Vida, 1999. p. 5.
[2]
FISHER, 1999, p. 8.
[3]
Ibid., p. 5.
[4]
STOTT, John, O discípulo radical. Trad:
Meire Portes Santos. Viçosa: Editora Ultimato, 2011. p. 14-18.
[5]
MACARTHUR, John. Redescobrindo o
ministério pastoral: Moldando o ministério contemporâneo aos preceitos
bíblicoas. Trad: Lucy Yamakami. Rio de Janeiro. CPAD, 1998. p. 14.
[6]
FISHER, 1999, p. 69.
[7]
Idem
[8] SELIMAN, Martin apud FISHER, 1999, p. 70.
[9]
SCHULBERT, Walmir Humberto apud HOCH,
Lotar Carlos: NOÉ, Sidnei Vilmar, Comunidade
Terapêutica: Cuidando do ser através de relações de ajuda. São Leopoldo:
Sinodal, 2003. p. 84.
[10]
FISHER, 1999, p. 70.
[11]
IBID., p. 72.
[12]
HAGIN, E. Kenneth, Redimidos: Da
miséria, da Enfermidade e da Morte. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 1990. p.
18.
[13]
ROMEIRO, Paulo, Evangélicos em crise:
A decadência doutrinaria na igreja brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.
p. 18.
[14]
ROMEIRO, 1999. p. 19.
[15]
Ibid., p. 20.
[16]
ROMEIRO, 1999. p. 18.
[17]
FISHER, 1999, p. 74.
[18] BÍBLIA.
Português. Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. São
Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. Edição revista e atualizada no
Brasil.
[19]
MACARTHUR, 1998. p. 110.
[20]
BOSETTI, Elena e PANIMOLLE, Salvatore A. Deus
pastor na Bíblia: Solidariedade de Deus com seu povo. Trad: Benôni Lemos.
São Paulo. Paulinas, 1986. p. 68.
[21]
PIPER, John. Irmãos, não somos
profissionais: Um apelo aos pastores para ter um ministério radical. Trad:
Lilian Palhares. São Paulo: Shedd Publicações, 2009. p. 19.
[22]
LOPES, Hernandes Dias. De pastor a pastor:
princípios para ser um pastor segundo o coração de Deus. São Paulo: Hagnos,
2008. p. 15.
[23]
CESAR, Kléos Magalhães Leaz. Vocação:
Perspectivas Bíblicas e Teológicas. Viçosa: Ultimato, 1997. p. 156.
[24]
LOPES, 2008, p. 22.
[25]
Ibid., p. 25.
[26]
Ibid., p. 27.
[27]
Ibid, p. 29.
[28]
KEMP, Jaime. Pastores em perigo: Ajuda
para o pastor, esperança para igreja. São Paulo: Hagnos, 2006. p.18.
[29] LOPES,
2008. p. 31.
[30]
SÍQUEIRA, Tércio Machado. Ministério para
ministérios: Campanha vocacional. São Bernardo do Campo: Editeo, 1992.
p.12.
[31]
NIEBUHR, H. Richard. As origens sociais
das denominações cristãs. Trad: Antonio Gouvêa de Mendonça, São Paulo: ASTE
e Ciências da Religião, 1992. p. 13.
[32] NIEBUHR,
1992, p. 13.
[33] STOTT, John. A verdade do Evangelho, Um apelo à Unidade. Trad: Marcell e Selêda
S. Steuernagel. Curitiba: ABU, 2000. p. 131.

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